
(...)
Estou delirando, pensou, somente doido mesmo é qu´eu ía ver o Capeta em pessoa. À sua esquerda uns dez metros, no pé da sombra do juazeiro estavam os outros dois repousando em sono profundo. Daniel os fitou, pareciam mortos, estavam imóveis com a boca aberta de onde até as moscas se recusavam a beirar. Pensou que a poeira poderia dar lugar, em breve, a vermes. Ou eles também se desviariam de tamanha desgraça antecipada?
Daniel sentiu a mão leve do homem, que só ele via, a apalpar-lhe o ombro. Curvou a cabeça, o que qui cê qué de mim? Respostas, respondeu.
A minha curiosidade é grande, tenho muitas perguntas também, igualzin o senhor.
Curioso? Todo símio é curioso, os mais inteligentes são ainda mais. Curiosidades, deixa eu ver uma. E parou buscando no chão algo e logo seguiu: Sabe, Daniel, que pelo sertão do Brasil passeiam camelos? Sabia? Mas tem mais jumento que outro bicho, retrucou. Sois pequenos e amuados como o bicho. O diabo dos olhos de Daniel riu e riscou o chão desenhando um peixe com um galho seco, um galho seco de três anos, só num deserto mesmo para não ser desintegrado. Talvez num deserto de verdade seria. Mas aquilo era umbral de verde e marrom, a natureza nunca decidira ao certo o destino do sertão.
Sabia não moço, sabia não. A garganta do garoto fraquejava enquanto o homem pegava pelo chifre uma caveira de bicho que estava semi enterrada, brotada como planta ali por perto.
Deus fez tudo, rapazinho, tudo. Até essa caveira de vaca chifruda que você tá olhando aqui. Ta vendo isso? Um dia isso mugiu! Um dia, você que quase muge, vai ficar assim, só o osso, a terra tem que ter muito asco ou respeito pra não querer te tragar com toda sua força.
Os olhos de Daniel arregalaram, tudo lhe parecia translúcido e via na caveira uma cabeça de vaca, com focinho molhado e tudo.
Ele dá tudo, menino. Confia em Deus, mas amarra seu jumento. Pra dormir à sombra de um juazeiro sem que o bicho possa lhe escapar durante o sono, amarre-o, ou morrerás no sertão seco. Seja prudente e, para viver, use sua astúcia.
E foi embora, de súbito lembrou das palavras em latim, mas foram algumas das últimas palavras que lhe tilintavam pelo labirinto da sua cabeça enquanto olhava para o céu e via uma sereia alada e negra que ía longínqua nadando para os confins da imensidão azul celestial.
(...)
Fragmento de Mãos Pretas, Vinícius Rocha Leão.
Xilogravura: Otávio Araujo - Sem Título - 37x27
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5 comentários:
Seu moço, qui texto é esse? Num cunheçu naum, mas mi deixô arrepiada qui só.
;o)
eu tenho talvez uma correçao no primeiro paragrafo...sempre obcecada c pontuaçao...
mas muit bom, nega, ta indo bem...caindo pro estilo sertao à la guimaraes. bisoutzas
e
Pin, arrepiou? Sereias negras e aladas andam dando voltas à cabeça ou é o "diabo" que tá na espreita?
Nêgutza, BINGO!
altas influências dos filósofos retirantes e jagunços.
Rosa e também Ramos brotam no meio de Rocha ...
êta animus cerrado, anima caatinga!
V.
a e.
é a erika?
hehehe
beijos
da p.
;o)
Pin, algo me faz pensar que sim!
:-D
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