
Talvez, se num dia essa raiva passar, eu renuncio a renúncia. O deixar de é algo que confunde e faz render confissão. Quis-te como amor eterno, amor erótico eterno, que fique bem claro. Meu intuito jamais foi ser algo além disso, eu julga.va isso o máximo do entendimento mútuo, o resto da vida juntos. Me dizem que isso contém várias outras formas de amor. É mentira. É a partir da comum aquiescência que vem todo o restante, toda a malha de interesses que se dizem desinteressados por se tratar do outro, que acaba sendo próprio e por fim, interessado. Como a mãe ama o filho? Desinteressadamente? Não. Ela gosta daquele pedaço que cresceu nela, um pedaço dela, a célula que se transformou em ser. O milagre. O custo. O Amor.
Mas quando a raiva passar, eu renuncio a renúncia dos meus planos, este amor construído, então será outro tipo de amor, outra forma de interesse. Interesse pelo que sobrou e não existe mais. Somente ai existe um traço de verdadeiro altruísmo. Mas é somente um traço, não nos esqueçamos disso. Renuncio os planos que fiz durante todo esse tempo assim como desmorono todo o meu futuro que não foi construído. Mas os sonhos edificam e tem por costume ver ruínas do que sequer foi concretizado. Mas a ruína fica, ela, antecipada se leva no corpo, na cabeça. E por vezes nos mutilamos. Quando eu finalmente deixar essa desconformidade com a sua ausência, quando eu disser que não, que tudo foi engano, que o caminho não era nem de perto a ser trilhado daquela forma, poderei estar em paz. Por enquanto só sei dos erros, mas o caminho trilhado não poderia ter outra forma, afinal, a forma destes caminhos é desenhada por duas pessoas, no mínimo.
Deixarei de lado um dia todo o rancor, ele existe porque é traço desse amor rançoso, alterou-se o sabor das coisas, a visão também é acerba quando se sai da cegueira que se insistia permanecer. Abrir os olhos arde, então. Um mundo assim é difícil de se adaptar.
Neste dia, que eu deixar de te amar como amei, não sei se sobrará um amor maior. Talvez um amor tímido, preocupado e mais que certo: velado. Um amor sem o grave compromisso. Um gostar de sabor longínquo: vivi. Mas não se vive mais. O respeito é pelo passado, e isso nos reveste com uma luxuosa, porém discreta, capa de honra. Temperança que desata amarras. Altivez. Altivez para os que rastejam, para mim que rasteja, levanta e volta a rastejar. Neste exato momento sou consciente que próximo da terra devo permanecer por um bom período.
O abandono faz a gente cair, sentir-nos frustrados. O ser humano foi feito pra andar em bando, quando por qualquer circunstância ocorre a deserção de um em relação ao outro, pobre outro. Não faz parte mais da manada, ainda que a manada fosse de dois, é metade da manada que parte, parte pra fazer conjunto com outra metade de manada. Sendo manadas inteiras e loucos por outras manadas. Se somos multidões, afinal de conta deveríamos nos bastar sós. Mas não. Quem no meio dos homens quer permanecer ou continuar, quem quer a presença do outro tem que se dar conta das multidões que falam da gente para a gente. Coisa ínfima e forte, conversa consigo mesmo. Dizem que é com Deus, com o íntimo das coisas, com a fonte que sabe tudo e que, através de nós se nega em sapiência, somente pra não ter os desejos tolhidos.
Como são tolos esses humanos que não entendem nada, sabem que já devem perdoar, sabem que o amor acabou e que também o perdão deve arrastar rumo a alguém cuja fonte de amores secou. Mas não existe perdão pelo desconforto dos seus egos equivocados, suas escolhas mesquinhas. Querem e querem, não vivem, ficam entre quereres e se olvidam dos sentires, e que os sentires são também sofreres. Que o amor existe na natureza como existem flores raras e plantas mortais. Tudo é especial se tem um fim.
O ódio parece não existir, ódio é algo tão próximo a morte, talvez queira matar-te, daí sim seria ódio. Talvez seja realmente um ódio que por uma isotonia de sentimentos ultrapassa lentamente a película do amor para o sentimento escuro e venenoso.
O ódio traz a repulsa e com ela a negação de todo o belo, os momentos perdidos, infindáveis momentos perdidos, até aqueles esquecidos que poderiam ser lembrados se tivessem juntos para recontar histórias e sentir sabores daquela época.
Mas a gente acorda para o viver. Desperto para o sentir o mundo. Se não o faço, o mundo se fechará em mim, uma vez mais. Terei como sobrenome um eclipse ou uma noite sem lua. Serei uma impressão pálida de cegueira mas estaria, ainda, me tateando. Mas pra sentir meu tato quero e preciso sentir o mundo novamente. Estou nele afinal.
Sempre olho pela janela e a vida passa como os pássaros bonitos e velozes por ela. Pareço permanecer fazendo rendas da vida cá dentro. O sol ilumina boa parte da Terra. Eu ilumino boa parte do sol.
Fragmento de "Demências da alvorada" de Vinícius Rocha Leão
Ilustração: Querubins (ou anjos) de Rafael Sanzio.
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