Terça-feira, 14 de Julho de 2009

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Talvez, se num dia essa raiva passar, eu renuncio a renúncia. O deixar de é algo que confunde e faz render confissão. Quis-te como amor eterno, amor erótico eterno, que fique bem claro. Meu intuito jamais foi ser algo além disso, eu julga.va isso o máximo do entendimento mútuo, o resto da vida juntos. Me dizem que isso contém várias outras formas de amor. É mentira. É a partir da comum aquiescência que vem todo o restante, toda a malha de interesses que se dizem desinteressados por se tratar do outro, que acaba sendo próprio e por fim, interessado. Como a mãe ama o filho? Desinteressadamente? Não. Ela gosta daquele pedaço que cresceu nela, um pedaço dela, a célula que se transformou em ser. O milagre. O custo. O Amor.

Mas quando a raiva passar, eu renuncio a renúncia dos meus planos, este amor construído, então será outro tipo de amor, outra forma de interesse. Interesse pelo que sobrou e não existe mais. Somente ai existe um traço de verdadeiro altruísmo. Mas é somente um traço, não nos esqueçamos disso. Renuncio os planos que fiz durante todo esse tempo assim como desmorono todo o meu futuro que não foi construído. Mas os sonhos edificam e tem por costume ver ruínas do que sequer foi concretizado. Mas a ruína fica, ela, antecipada se leva no corpo, na cabeça. E por vezes nos mutilamos. Quando eu finalmente deixar essa desconformidade com a sua ausência, quando eu disser que não, que tudo foi engano, que o caminho não era nem de perto a ser trilhado daquela forma, poderei estar em paz. Por enquanto só sei dos erros, mas o caminho trilhado não poderia ter outra forma, afinal, a forma destes caminhos é desenhada por duas pessoas, no mínimo.

Deixarei de lado um dia todo o rancor, ele existe porque é traço desse amor rançoso, alterou-se o sabor das coisas, a visão também é acerba quando se sai da cegueira que se insistia permanecer. Abrir os olhos arde, então. Um mundo assim é difícil de se adaptar.

Neste dia, que eu deixar de te amar como amei, não sei se sobrará um amor maior. Talvez um amor tímido, preocupado e mais que certo: velado. Um amor sem o grave compromisso. Um gostar de sabor longínquo: vivi. Mas não se vive mais. O respeito é pelo passado, e isso nos reveste com uma luxuosa, porém discreta, capa de honra. Temperança que desata amarras. Altivez. Altivez para os que rastejam, para mim que rasteja, levanta e volta a rastejar. Neste exato momento sou consciente que próximo da terra devo permanecer por um bom período.

O abandono faz a gente cair, sentir-nos frustrados. O ser humano foi feito pra andar em bando, quando por qualquer circunstância ocorre a deserção de um em relação ao outro, pobre outro. Não faz parte mais da manada, ainda que a manada fosse de dois, é metade da manada que parte, parte pra fazer conjunto com outra metade de manada. Sendo manadas inteiras e loucos por outras manadas. Se somos multidões, afinal de conta deveríamos nos bastar sós. Mas não. Quem no meio dos homens quer permanecer ou continuar, quem quer a presença do outro tem que se dar conta das multidões que falam da gente para a gente. Coisa ínfima e forte, conversa consigo mesmo. Dizem que é com Deus, com o íntimo das coisas, com a fonte que sabe tudo e que, através de nós se nega em sapiência, somente pra não ter os desejos tolhidos.

Como são tolos esses humanos que não entendem nada, sabem que já devem perdoar, sabem que o amor acabou e que também o perdão deve arrastar rumo a alguém cuja fonte de amores secou. Mas não existe perdão pelo desconforto dos seus egos equivocados, suas escolhas mesquinhas. Querem e querem, não vivem, ficam entre quereres e se olvidam dos sentires, e que os sentires são também sofreres. Que o amor existe na natureza como existem flores raras e plantas mortais. Tudo é especial se tem um fim.

O ódio parece não existir, ódio é algo tão próximo a morte, talvez queira matar-te, daí sim seria ódio. Talvez seja realmente um ódio que por uma isotonia de sentimentos ultrapassa lentamente a película do amor para o sentimento escuro e venenoso.

O ódio traz a repulsa e com ela a negação de todo o belo, os momentos perdidos, infindáveis momentos perdidos, até aqueles esquecidos que poderiam ser lembrados se tivessem juntos para recontar histórias e sentir sabores daquela época.

Mas a gente acorda para o viver. Desperto para o sentir o mundo. Se não o faço, o mundo se fechará em mim, uma vez mais. Terei como sobrenome um eclipse ou uma noite sem lua. Serei uma impressão pálida de cegueira mas estaria, ainda, me tateando. Mas pra sentir meu tato quero e preciso sentir o mundo novamente. Estou nele afinal.

Sempre olho pela janela e a vida passa como os pássaros bonitos e velozes por ela. Pareço permanecer fazendo rendas da vida cá dentro. O sol ilumina boa parte da Terra. Eu ilumino boa parte do sol.


Fragmento de "Demências da alvorada" de Vinícius Rocha Leão


Ilustração: Querubins (ou anjos) de Rafael Sanzio.

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Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Dia do Rock

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Eu iria colocar uma só música para o dia do rock... mas eram tantas que resolvi pesquisar no google alguma lista onde guitarristas e seus instrumentos se destacassem.

A guitarra é um dos símbolos máximos do rock, na seleção abaixo a gente da uma conferida no trabalho de escolha da revista Rolling Stone. Em uma de suas edições trouxe uma lista das 100 músicas de guitarra que mais marcaram época. Músicas onde a guitarra é protagonista seus arranjos e solos.

Long live to rock and roll...

  1. Johnny B. Goode - Chuck Berry
  2. Purple Haze - The Jimi Hendrix Experience
  3. Crossroads - Cream
  4. You Really Got Me - The Kinks
  5. Brown Sugar - The Rolling Stones
  6. Eruption - Van Halen
  7. While My Guitar Gently Weeps - The Beatles
  8. Stairway to Heaven - Led Zeppelin
  9. Statesboro Blues - The Allman Brothers Band
  10. Smells Like Teen Spirit - Nirvana
  11. Whole Lotta Love - Led Zeppelin
  12. Voodoo Child (Slight Return) - The Jimi Hendrix Experience
  13. Layla - Derek and the Dominos
  14. Born to Run - Bruce Springsteen
  15. My Generation - The Who
  16. Cowgirl in the Sand - Neil Young & Crazy Horse
  17. Black Sabbath - Black Sabbath
  18. Blitzkrieg Bop - Ramones
  19. Purple Rain - Prince and the Revolution
  20. People Get Ready - The Impressions
  21. Seven Nation Army - The White Stripes
  22. A Hard Day’s Night - The Beatles
  23. Over Under Sideways Down - The Yardbirds
  24. Killing in the Name - Rage Against the Machine
  25. Can’t You Hear Me Knocking - The Rolling Stones
  26. How Blue Can You Get - B.B. King
  27. Look Over Yonders Wall - The Paul Butterfield Blues Band
  28. Where the Streets Have No Name - U2
  29. Back in Black - AC/DC
  30. (We’re Gonna) Rock Around the Clock - Bill Haley and His Comets
  31. Keep Yourself Alive - Queen
  32. Sultans of Swing - Dire Straits
  33. Master of Puppets - Metallica
  34. Walk This Way - Aerosmith
  35. 1969 - The Stooges
  36. Interstellar Overdrive - Pink Floyd
  37. That’s All Right - Elvis Presley
  38. Stay With Me - The Faces
  39. Black Magic Woman - Santana
  40. I Can See for Miles - The Who
  41. Marquee Moon - Television
  42. Hideaway - John Mayall and the Bluesbreakers
  43. Holidays in the Sun - Sex Pistols
  44. Dig Me Out - Sleater-Kinney
  45. I Saw Her Standing There - The Beatles
  46. Miserlou - Dick Dale and the Del-Tones
  47. Panama - Van Halen
  48. London Calling - The Clash
  49. Machine Gun - Jimi Hendrix
  50. Debaser - Pixies
  51. Crazy Train - Ozzy Osbourne
  52. My Iron Lung - Radiohead
  53. Born on the Bayou - Creedence Clearwater Revival
  54. Little Wing - Stevie Ray Vaughan
  55. White Room - Cream
  56. Eight Miles High - The Byrds
  57. Dark Star - Grateful Dead
  58. Rumble - Link Wray
  59. Freeway Jam - Jeff Beck
  60. Maggot Brain - Funkadelic
  61. Soul Man - Sam and Dave
  62. Born Under a Bad Sign - Albert King
  63. Sweet Child O’ Mine - Guns n’ Roses
  64. Freebird - Lynyrd Skynyrd
  65. Message in a Bottle - The Police
  66. Texas Flood - Stevie Ray Vaughan
  67. Adam Raised a Cain - Bruce Springsteen
  68. The Thrill is Gone - B.B. King
  69. Money - Pink Floyd
  70. Bullet With Butterfly Wings - Smashing Pumpkins
  71. Take it or Leave it - The Strokes
  72. Say It Ain’t So - Weezer
  73. Summertime Blues - Blue Cheer
  74. La Grange - ZZ Top
  75. Willie the Pimp - Frank Zappa
  76. American Girl - Tom Petty and the Heartbreakers
  77. Even Flow - Pearl Jam
  78. Stone Crazy - Buddy Guy
  79. Silver Rocket - Sonic Youth
  80. Kid Charlemagne - Steely Dan
  81. Beat It - Michael Jackson
  82. Walk — Don’t Run - The Ventures
  83. What I Got - Sublime
  84. Gravity - John Mayer
  85. You Enjoy Myself - Phish
  86. I Ain’t Superstitious - Jeff Beck
  87. Red - King Crimson
  88. Mona - Quicksilver Messenger Service
  89. I Love Rock N Roll - Joan Jett and the Blackhearts
  90. How Soon Is Now? - The Smiths
  91. Drunkship of Lanterns - The Mars back
  92. Memo from Turner - Mick Jagger
  93. Only Shallow - My Bloody Valentine
  94. Money for Nothing - Dire Straits
  95. Omaha - Moby Grape
  96. New Day Rising - Hü sker Dü
  97. No One Knows - Queens of the Stone Age
  98. Under the Bridge - Red Hot Chili Peppers
  99. Run Thru - My Morning Jacket
  100. Vicarious - Tool
Fica ai a dica pra quem curte um rockzinho bão
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Sábado, 11 de Julho de 2009

Rubáiyát - Omar Kháyyám

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148

Recebi o
golpe que esperava.
Abandonou-me a bem-amada

Quando eu a possuía,
era-me tão fácil desprezar o
amor e exaltar todas
as renúncias! ...

Junto de tua amada
Kháyyám, como estavas só!

Sabes?

Ela se foi pra que tu
possas refugiar-te nela ...


149

Senhor!

Despedaçaste
minha alegria!

Senhora, ergueste uma
muralha entre o coração
da minha amada e o meu!

Minha bela colheita,
tu a destruíste ...

Vou morrer ...

Tu cambaleias! ...
embriagado ...


Pg. 150 e 151 de Rubáiyát - Omar Kháyyám, tradução de Octável Tarquinio de Sousa.
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Justiça e o cinturão de Graciliano

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E a gente sempre pergunta sobre a Justiça, ah se Thêmis existisse, sua espada estaria banhada de sangue. Mas ela é um titã perante a insignificancia da presença humana e seu interar com o meio, com o tempo e com os outros. O humano não foge disso e cria uma miríade de formas de viver em conjunto assim como solitariamente. Ambiciona a justiça sobre a terra como tenta sentir a potência quando quer ou sente que fez justiça. Aguça sua vontade de seguir no tempo dar continuidade a um ciclo. Cada caso, um aprendizado, tanto no pensar como no viver.
Antes de chegar ao meio do meu curso de Direito eu constatei, com misto de rebeldia e desencanto, que a Justiça não existe. Isso não me martirizou, ruim era ver a gente pobre que penava mais ainda por ser massa de manobra, os três supremos poderes e já complementados, eram corruptíveis, tanto legislativo como judiciário e, logicamente o executivo. Porque nada que vem do humano pode ser fundamentalmente justo. O justo é eterno, nesta regra somente uma divindade poderia ser justa. Tudo é relativizável porque somos seres que relativizamos até nós mesmos. A injustiça não é culpa do mundo, e sim dos vários olhos que o compõe.
Bom, tanta conversa meio que fiada pra apresentar um texto do genial Graciliano Ramos, algo entre o algoz que pode se travestir de Thêmis


Um cinturão

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com urna corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal - e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente e me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os ,sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disso. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal.

Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos - e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me, num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava - e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.


Em Infância, de Graciliano Ramos (Record 1980)

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Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Canibalismo ou "eu à la carte"

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Quais das minhas partes serão servidas no seu próximo jantar?
Meu coração é uma iguaria sem igual, precioso demais, e você, sabendo disso, o apresou primeiro. Não come de bocados porque es metódico, vê, observa cartesiano, chef de la ancienne cuisine, sente o cheiro e prepara a comida para sua gastrolatria glutônica.
Às vezes rápido, mal passado, engolir às pressas. Às vezes cozido por dias, meses e, quem sabe, anos. Não sei se há uma outra parte minha presa por você como alimento refinado, esquisito, de difícil preparo, há anos. Talvez sim, o suco do meu cérebro, o tempero dos meus pensamentos, meus sonhos sem igual.
E foi deglutindo-me pouco a pouco, sobrando de mim o ser mastigado, provado entre risos e boca calada. Quantos sabores soltei, cada parte de mim corresponde a uma parte da língua. Azedo, amargo, doce ou salgado. Salgado suor que se pregou sacro perfilando uma deliciosa arritimia.
Uma parte que também aprecias é o meu fígado, gostas de, como a águia lá da antiguidade, das lendas ancestrais, bicar-me como pinça que agarra e rasga, parte de mim que não me mata mas me faz sofrer. Sofrer para revolver e saber, renascido, o limite da dor que se suporta, que me suporto, para - entre outras constatações - conhecer a fronteira do meu pesar, indigestão.
Em um extremo minha alegria extasiada - felicidade em prato raso? - N'outro, minha tristeza profunda, prato de sopa, quase sem fim. Sei que se acaba não por terminar, por haver ponto final, e sim pela costumeira obtenção de andar pelos caminhos do pesar. Da vida farta de grilhões e da luta com punhos machucados. Peleja do bem e do mal.
Um anjo mutilado se apresenta sem asas. Nem completo humano é, está devorado mas ainda com sonhos, andando como se tivesse os sentimentos espancados e a alma em coma.
Dos meus membros, as mãos foram devoradas, junto aos pés, para eu não poder fazer o que queria e sim o que queríamos. Assim foi e fiz-fizeste do seu caminho, o nosso. E eu achando que também o trieiro era meu, andei contigo pregado ao corpo que seguia seu sonho próximo ao chão, seu vôo comedido, seu viver.
Agora me pergunto: onde estão meus olhos para ver tudo com claridade? Eu os comi ou foi você? Estou perdido, ainda jovem mas de avançada idade. Onde está meu nariz pra poder sentir meu olente prato eu, sentir o podre do mundo, o podre seu, o podre meu?
Minha boca só grita, parece que nem língua tenho - comeste até isso? - , meu idioma ficou híbrido com o seu.
Sobraram os ouvidos. Eles não foram comidos, você precisava deles para falar do seu mundo, dizer sua opinão dos sabores doce ou amargo das coisas, dos seres, de você e de mim. Necessitava de alguém para escutar como era grande sua miséria cotidiana e também a dos outros. Como eu era todo ouvidos, no dia que tinha me que escutar e a mais ninguém, ouvir a voz que me liga com o êxtase, o imaterial sentido, já não era suficiente para ti e me comias uma outra parte.
Ah se minha vida fosse tão pequena e minhas dimensões limitadas, eu não regeneraria, permaneceria mutilado e devorado por você, seria seu excremento somente, depois da cruel digestão das minhas entranhas que te servi em prato limpo, prato de prata, mais que isso: ouro, mas nunca de estanho que envenena.
Sobrou meu sangue - ainda vivo -, ou parte dele, vampiros me sugaram também - sempre sugam se deixamos, mas se não, não se vive - a vida é uma tranfusão contente, comensal na mesa dos seres.
E como numa mitologia qualquer sairá não um cavalo alado - não petrifico ninguém - e sim o que sou, o que era e serei: um anjo de seis asas prestes a se diluir na eternidade das coisas.
Já não há arrependimento por servir-me e deixar-me sorver, nunca houve de fato. Há o presente onde me transformo de cru para preparado, para ser provado, por exemplo pra você que me acaba de ler.

Fragmento de "Demências da alvorada" de Vinícius Rocha Leão

Figura: Saturno devorando seus filhos - Goya (Goya dispensa qualquer comentário, é absoluto gênio)
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Amor

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O que é o amor?
Uma charada que nem Platão resolveu.

Amar é um verbo amplo demais,
absoluto e polissêmico.
Pasmem, amor assim se faz e desfaz.
Vazio que o vento leva pr'além do tempo
se junta e some sem mais.

Agitam as veias, mas e esse sentimento?
Asa livre ou mão atada?
Polimerase desembestada?
Dopamina, serotonina,
cafeína e cocaína,
ínas e mais ínas.
Mais nada além de enzimas?

Dia-e-noite, vai-e-vem
de cadeiras,
de pessoas,
de esteiras
de histórias
de coroas.

Além da matéria, gira o mundo,
,e nele rolam os dados,
mudando as pessoas de rumo
após perderem seus reinados.
Balançam umas mãos sós
,ciranda descabida da sorte,
enquanto outras agarram
n'outra mão do seu consorte.

Dado Eros ou
Sorte Psique?
Ludismo pra você.
Pragma da demência.
Curem suas chagas.
Fraternidade da eloquência.
Mania até de querer Ágape.
Lamúria eternamente condenada,
pergunta de resposta velada.
Pobres dos que vagam e não sentem.
Estorge da emoção que funde
na indagação que foge.

Rompeu uma semente:
big-bang no bosque
da sua existência.

Vinícius Rocha Leão

Figura: Eros e Psique, escultura de Antonio Canova, Museu do Louvre
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Domingo, 5 de Julho de 2009

Nasrudin e Ponte Preta

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Para um domingo calmo, o velho truão, Nasrudin... e abaixo uma versão brazuca de "O contrabandista", por Stanislaw Ponte Preta :-)


A mulher perfeita


Nasrudin conversava com um amigo:

- Então, Mullah, nunca pensaste em casamento?

- Muito. - respondeu Nasrudin - Em minha juventude, resolvi conhecer a mulher perfeita. Atravessei o deserto, estive em Damasco e conheci uma mulher espiritualizada e linda; mas ela não sabia nada das coisas do mundo. Continuei a viagem e fui a Isfahan; lá encontrei uma mulher que conhecia o reino da matéria e do espírito, mas não era bonita. Então resolvi ir até o Cairo, onde, finalmente, jantei na casa de uma moça bonita, religiosa e conhecedora da realidade material.

- E por que não casaste com ela?

- Ah, meu companheiro! Infelizmente ela também procurava um homem perfeito.

Khawajah Nasr Al-Din


O contrabandista

Volta e meia, Nasrudin atravessava a fronteira entre a Pérsia e a Grécia montado no lombo de um burro. Toda vez passava com dois cestos cheios de palha e voltava sem eles, arrastando-se a pé. Toda vez o guarda procurava por contrabando. Nunca o encontrou.

"O que é que você transporta, Nasrudin?"

"Sou contrabandista."

Anos mais tarde, com uma aparência cada vez mais próspera, Nasrudin mudou-se para o Egito. Lá encontrou um daqueles guardas de fronteira.

"Diga-me, Mullá, agora que você está fora da jurisdição grega e persa, instalado por aqui nesta vida boa - o que é que você contrabandeava, que nunca conseguimos pegar?"

"Burros."


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A velha contrabandista

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

- É areia!

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

- O senhor promete que não "espáia"? - quis saber a velhinha.

- Juro - respondeu o fiscal.

- É lambreta.
(Stanislaw Ponte Preta)




Para mais Mullá Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) AQUI.
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